Durante toda a terça-feira (27/10), o governo Milei disse às autoridades brasileiras que Flávio não havia entrado no país.
Na manhã de terça, a Polícia Federal do Brasil havia dito que as autoridades argentinas tinham sido acionadas para identificar se o senador havia viajado à Argentina.
O acionamento aconteceu após informações publicadas pela imprensa argentina de que uma aeronave particular com destino aos EUA estaria no aeroporto de Puerto Iguazú, próximo à fronteira com o Brasil.
Segundo a Direção Nacional de Migrações da nação vizinha, as autoridades argentinas foram informadas sobre a possibilidade da presença do senador no aeroporto de Puerto Iguazú e fizeram a averiguação de uma aeronave privada — da empresa Baires Fly, prefixo LV-JQW —, que estava estacionada no local, assim como documentos do avião, e "constataram que não havia nenhum plano de voo que incluía a família Bolsonaro".
Na madrugada desta quarta-feira (28/10), em um post no X, a Direção Nacional de Migrações da Argentina afirmou que Flávio entrou no país às 22h50 de terça-feira, no horário local, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, a antiga Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu (PR).
Ele estava acompanhado da esposa, Fernanda, e de duas filhas, Carolina e Luiza, ainda segundo o governo argentino.
O destino de Flávio
Se o destino final de Flávio Bolsonaro for os Estados Unidos, ele estaria seguindo os passos do irmão, Eduardo, que decidiu viver no país em março de 2025.
Na época, ele justificou a decisão como uma forma de atuar junto ao governo Donald Trump pela anistia aos envolvidos nos ataques do 8 de janeiro no Brasil e para obter sanções ao ministro Alexandre de Moraes, relator do processo sobre golpe de Estado no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado.
Em dezembro de 2025, Eduardo teve seu mandato de deputado federal cassado por excesso de faltas. Já em junho deste ano, ele foi condenado no STF a 4 anos e 2 meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo.
Segundo a Corte, ele atuou nos Estados Unidos para tentar interferir no julgamento que levou à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Em julho, Eduardo anunciou que obteve o famoso green card, o documento que permite viver em terras americanas sem restrições.
Após o resultado das eleições no Brasil, no domingo (25/10), Flávio recusou-se a reconhecer a derrota, alegando que a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de adiar em duas horas o horário de votação, mudou "as regras do jogo".
A decisão de Zanin foi tomada após pedidos das campanhas do PT — que alegou insuficiência de transporte público pelo país — e do PL — sob a justificativa de que chuvas teriam prejudicado a chegada de eleitores às seções de votação no Sul.
Apesar da recusa de Flávio de reconhecer a derrota, sua campanha divulgou, na segunda, uma nota em que agradece aos 60 milhões de votos e diz que, a partir de agora, "assume a liderança da oposição". O PL, partido de Flávio, reconheceu o resultado das eleições.
Também na segunda, Flávio anunciou que, em vez da anulação das eleições, pediria a cassação da chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo com 51,79%, por abuso de poder.
Crédito,Mateus Bonomi/Reuters
Flávio não deve ser tratado como foragido
Flávio Bolsonaro não deve ser tratado como foragido da Justiça, mesmo com sua saída do Brasil após o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinar a apreensão de seus passaportes e a proibição de viagens internacionais.
Segundo criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil, o senador só poderia ser tratado como foragido se houvesse uma ordem de prisão preventiva contra ele.
A decisão de Moraes veio dentro de um inquérito que investiga Flávio por suposta lavagem de dinheiro com o advogado Willer Tomaz.
"Foragido é quem tem contra si uma ordem de prisão e não se apresenta para o seu cumprimento. O que o Flávio tem contra ele é uma ordem de uma medida cautelar alternativa à prisão: a proibição de ausentar-se do país, tendo como mecanismo para assegurá-la a entrega dos passaportes", disse o criminalista Gustavo Badaró, professor titular de Direito Processual Penal da Universidade de São Paulo (USP).
"A situação dele é de alguém que está sendo investigado em um inquérito policial e descumpriu uma medida cautelar alternativa à prisão. Pode até ocorrer que, em virtude deste descumprimento, seja requerida a prisão preventiva dele e o ministro Alexandre de Moraes a decrete. Neste caso, se houver uma ordem de prisão contra ele, aí ele poderá ser considerado foragido", continuou.
A avaliação é a mesma do professor Davi Tangerino, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
"Enquanto não houver uma ordem de prisão, não podemos chamá-lo de foragido. Por enquanto, tudo que ele fez foi descumprir uma cautelar de entrega de passaporte", diz ele.
Por outro lado, o descumprimento da ordem judicial de Moraes caracteriza crime de desobediência, previsto no artigo 330 do Código Penal, com pena prevista de detenção de quinze dias a seis meses, além de multa.
Investigações contra Flávio seguirão no STF
Flávio perderá o foro privilegiado após 31 de janeiro, quando acaba seu mandato parlamentar.
Apesar disso, os inquéritos contra ele devem continuar STF, avaliam criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil.
Mesmo se estiver fora do país, isso não impede que as investigações prossigam. Seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, mora nos EUA e foi investigado, processado e condenado por tentar obstruir a ação criminal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
A atual jurisprudência da Corte determina que investigações em curso são mantidas no STF, quando os supostos crimes forem cometidos durante o mandato e relacionados à sua atuação no cargo.
Duas investigações estão em andamento: uma apura possíveis irregularidades no repasse de quase 70 milhões de dólares do Banco Master para o filme Dark Horse, em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto outra investiga suposta lavagem de dinheiro em parceria com o advogado Willer Tomáz.
